Orientação espacial contribui no processo de alfabetização Por Teresinha de Oliveira Sassi
Uma grande preocupação dos profissionais da área de Educação Física é apresentar aos seus pares e ao sistema educacional, a contribuição desta área do conhecimento, no aprendizado do cotidiano do aluno e principalmente no processo de alfabetização. Todos os conteúdos elencados pela área, trazem sua contribuição, mas a Orientação Espacial, é considerada altamente relevante neste processo. Entende-se por Orientação Espacial a capacidade que o indivíduo tem de situar-se e orientar-se, em relação aos objetos, as pessoas e o seu próprio corpo em um determinado espaço. É saber localizar o que está à direita ou à esquerda; à frente ou atrás; acima ou abaixo de si, ou ainda, um objeto em relação a outro. É ter noção de longe, perto, alto, baixo, longo, curto. ASSUNÇÃO JOSÉ e COELHO (1995). Desde o nascimento, o indivíduo começa a se relacionar com o espaço. Isso se estabelece em função de estímulos exteroceptivos, àqueles vindos do meio onde a criança está inserida. LE BOULCH (1984), afirma que “o espaço é o primeiro lugar ocupado pelo corpo e no qual se desenvolvem os movimentos corporais. Este espaço vivido com limites suaves é objeto de uma experiência emocional intensa...” E estes movimentos corporais têm origem em diversos aspectos, entre eles os sociais e os neurológicos, que são de grande importância. O sistema cerebeloso tem como função o movimento reflexo, isto é, regula a proprioceptividade inconsciente. Sua função também é regular a harmonia e o equilíbrio interno do movimento, mantendo os mecanismos de feedback, que permitem os reajustamentos permanentes do movimento. A criança passa por diversas fases na exploração e entendimento do espaço. No recém-nascido o movimento e a ocupação do espaço se dão pelo processo bem rudimentar, permanecendo onde é colocado. Com o crescimento físico e o desenvolvimento maturacional, ela começa a manipular objetos e neste momento a mão tem um papel fundamental na comunicação com o meio exterior NEGRINE (1986). Através da mão a criança passa a explorar o meio circundante e essas experiências táteis são extremamente significativas. Com a necessidade de se locomover, passa a dimensionar algumas noções de espaço. Importante que a criança vivencie o engatinhar, tocando objetos, pois fortalecerá seus músculos. As noções de contraste de acima e abaixo, entre outras, passam a ser vivenciadas com o corpo de maneira espontânea na sua exploração do meio. Ao abaixar-se para pegar um objeto embaixo de uma cadeira, ou mudar de direção para apanhar outro que está às suas costas, estes contrastes vão se internalizando. “A maturidade cerebral é associada ao desenvolvimento corporal, os movimentos vão se tornando mais coordenados e precisos, determinando assim uma evolução da noção espacial” NEGRINE 1986, p.54. Com essa evolução a criança passa a exercitar mais os toques e as descobertas. E no momento que a criança inicia esta fase, com a curiosidade de sua descoberta, a mãe grita: “Não pegue, vai quebrar!”. É como se falasse que esse movimento é negativo, que não deve ser executado. Àquele corpinho aberto, solto, pronto para receber todo tipo de estimulação, está aprendendo a se prender, se contrair. A mão informa que aquilo que é natural e espontâneo na criança não é aceito. Portanto, a imagem corporal que formamos na nossa mente através de todos os processos sensoriais, reflete todos os conflitos emocionais relacionados com a nossa cultura e auto-orientação. No momento de contração do músculo, modifica-se o funcionamento e o seu registro mental. IWANOVICZ in BRUHNS 1989, p.68. A criança vai progredindo e ampliando sua noção espacial, passando do engatinhar para a posição bipedal, que é o andar, avançando cada vez mais na exploração do meio. Ao transpor um obstáculo encontrado, expressa seu gesto mais espontâneo com a elevação do pé. Inicia-se neste instante, as noções de orientação espacial que vão se organizando como expressões de inteligência. A noção espacial se estrutura e se orienta através de atividades de exploração e imitação, que se processam a partir da construção do esquema corporal. E as experiências vividas incorporam na criança os dados necessários à percepção do tempo e do espaço, no domínio das relações espaciais. FONSECA (1987), confirma “o corpo aparece como a síntese do EU, em que a estrutura espacial e temporal do corpo garante ao indivíduo a noção de passado e futuro imediato que caracteriza o fenômeno de adaptação ao mundo exterior”. Percebe-se a importância das crianças vivenciarem e experimentarem com seu corpo diferentes espaços físicos, objetos, jogos e brinquedos e a noção de espaço vai se confirmando apoiada numa noção de corpo e a evolução da motricidade corresponde a um fim cognitivo. A criança vai construindo o real com base na exteriorização dos movimentos de seu corpo. Toda experiência corporal auxilia na definição das noções espaciais, encontrando objetos e entrando dentro, colocando um sobre o outro, colocando um dentro do outro, fazendo suas próprias tentativas. O andar mantém correspondência muito próxima com o desenvolvimento da linguagem, pois a exploração do meio determina a necessidade de comunicação do eu e os objetos, e os outros. As noções espaciais já vivenciadas com o corpo, como: dentro, fora, acima, abaixo, logo terão significado e serão verbalizadas. Com a fala multiplica-se as possibilidades de interação com o meio. E a verbalização decorrente do aparecimento da fala passa a estruturar o corpo no espaço, onde a criança encontra o significado das coisas e dos objetos, adquirindo assim melhor orientação espacial. A linguagem aparece como forma social de conhecimento e pré-conhecimento, diferenciada da forma sensório-motora. Verifica-se o quanto é importante vivenciar o corpo desde o nascimento e relacionar as diferentes partes do corpo: adiante, atrás, ao lado, acima, abaixo, entre, etc. e a função simbólica que se tem para toda a vida. Estes conceitos e contrastes espaciais, vivenciados corporalmente e verbalizados pela criança antes, mas principalmente no período pré-escolar, vai se interiorizado e constituindo referências para a aprendizagem posterior no plano psicomotor e cognitivo. Nesta fase o brinquedo simbólico é tão rico para o desenvolvimento da criança que uma análise superficial nem de longe chega a apreender todas as suas possibilidades. Quando uma criança começa a ler e escrever correntemente, quando começa a fazer contas, parece que tudo acontece derepente, num estalo, quase num passe de mágica. Acontece que muita coisa se modifica até que adquira estruturas cognitivas que tenha complexidade suficiente para apreender e reproduzir as linguagens codificadas da sociedade. E essa construção se encontra na atividade lúdica, no jogo, no faz-de-conta .Vai se estruturando um corpo que é capaz de pegar, rolar, rir, chorar, bater, sentar, deitar, andar, etc., e que é capaz de conhecer as coisas que pega, sobre as quais rola, pelas quais chora e ri, e assim por diante. A inteligência corporal bastaria. Mas percebe-se que ela não é suficiente. A compreensão do mundo limitado à ação corporal já não é tão importante para o indivíduo, depois de estruturar toda uma realidade de tempo, objeto, espaço e causalidade através da ação corporal, ele inicia tudo através da ação mental. Para o ser humano, não basta fazer, é preciso compreender (fazer em pensamento) FREIRE(1992). O espaço e tempo vividos, ao nível de relação de corpo com o mundo, das relações representadas, nasce à atividade mental, o raciocínio-matemático, ao qual o sujeito se valerá cada vez que necessitar resolver problemas como, por exemplo, os apresentados pela leitura e escrita. “Com o aparecimento da fala fecha o ciclo do desenvolvimento elementar do ser humano. É então que a orientação espacial experimenta uma evolução acelerada”. NEGRINE(1986 p.60). Essas noções são fundamentais para a estruturação do corpo, do espaço e do tempo e por isso essencial também para as aprendizagens da leitura e da escrita. Os profissionais de Educação Física podem contribuir com sua experiência e olhar cuidadoso às crianças, no início do processo de alfabetização, em relação à compreensão e internalização da Orientação Espacial, um conteúdo de todas às áreas, mas que é específico da Educação Física.
Teresinha de Oliveira Sassi Licenciada
em Educação Física, especialista em Ciências do Movimento Humano. Professora da Prefeitura Municipal de Curitiba Professora de pós-graduação da Faculdade Padre João Bagozzi. Facilitadora de Biodanza, pela International Biocentric Foundation.
Professores enviem seus artigos para publicação na próxima edição do Jornal Sinpropar até 10 de junho. imprensa@sinpropar.org.br
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSUNÇÃO JOSÉ, Elisabete da; COELHO, Maria Teresa. Problemas de Aprendizagem. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1995. BRUHS, Heloísa Turini. Conversando Sobre o Corpo. 3ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1989. FERREIRA, Reginaldo José. A criança Pré-Escolar que Ingressa no Ensino Fundamental: Uma Análise da Coordenação Motora Ampla. Blumenau-SC., 1997-Dissertação (Mestrado em Educação – Ensino Superior) Univ. Regional de Blumenau. FONSECA, Victor da; MENDES, Nelson de. Escola, Escola, quem és tu? Porto Alegre: Artes Médica, 1987. FREIRE, João Batista: Educação de Corpo Inteiro. Editora Scipione, 1992. LE BOULCH, Jean, Desenvolvimento Psicomotor do Nascimento até 6 anos. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984. NEGRINE, Airton da Silva, Educação Psicomotora: Lateralidade e Orientação Espacial. 1ª ed. Porto alegre: Globo, 1986. SASSI, Teresinha de Oliveira, A Importância da Orientação Espacial para o Aprendizado da Leitura e Escrita. Curitiba-PR., IBPEX – 1999.
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